O Distanciamento entre filosofia e política, e o sentido da política em Hannah Arendt
Hannah Arendt identifica no pensamento de Platão aquilo que ela designa como “Tirania da Verdade”, ao mesmo tempo em que nos mostra de que modo essa “tirania” se fundamenta a partir de uma cisão entre filosofia e política. Essa cisão causa uma progressiva degradação da política que deixa de ser o espaço do próprio exercício da liberdade para ser meramente aquilo que garante a existência de liberdades individuais e que preserva a reprodução da vida. Ademais, ao ser apartada da liberdade e da própria atividade do pensamento e do diálogo, a política se apropria do uso da força e a esfera política passa a ser a esfera da coerção. A política degradada, portanto, é aquela que perdeu o seu sentido, ou seja, que não proporciona espaço público para a discussão e compartilhamento de um mundo em comum. A degradação atinge seu ápice quando a pergunta “Qual é o sentido da política?” é suplantada por “Tem a política algum sentido?”. Em nosso artigo, buscamos mostrar o percurso argumentativo da filósofa que se inicia com o exame da “tirania da verdade” e da cisão entre filosofia e política até a consequente perda do próprio sentido da política. Para isso, examinaremos especialmente seus textos “Filosofia e Política”, “O que é autoridade?”, “Tradição e Idade Moderna” e “O sentido da Política”.