“O QUE ME DÓI É VER AS CRIANÇAS NAS CAÇAMBAS”
As situações emergenciais inauguradas com a pandemia de Covid-19 nos obrigaram a conjecturar sobre as dinâmicas de sociabilidades e os modos como elas se constituem na vida em meio à letalidade do vírus Sars-CoV-2 e das necropolíticas em curso no Brasil. Em várias cidades pelo país, a alternativa encontrada foi o ensino remoto e, em outras, dada a exclusão digital, as escolas instituíram práticas educativas possíveis com vista a manter os vínculos com as crianças. Com atenção a esse cenário, nosso objetivo é interrogar as experiências docentes, em contextos socioeconômicos desiguais que marcam a cidade de Pelotas, interior do estado do Rio Grande do Sul, sobre o acesso de estudantes as tecnologias de ensino remoto ou práticas educativas possíveis propostas pela Secretaria Municipal de Educação e Deporto. Para isso, foram realizados diálogos informais com docentes e equipes pedagógicas diretivas, por meio de aplicativos de conversas instantâneas, a exemplo de WhatsApp, a fim de discutir suas experiências acerca do ensino remoto e das possibilidades no que diz respeito ao auxílio e manutenção de vínculo com as/os estudantes. As ponderações, balizadas nas contribuições de Michel Foucault, Judith Butler e Achille Mbembe expõem que a pandemia acentuou o drama vivido pelas populações empobrecidas, desnudando o cenário violento das necropolíticas neoliberais que desmantelaram as políticas sociais nos últimos anos.